Sei que não sou boa o suficiente para muitas coisas. Prepotência minha? Não sei de nada realmente, mas me vejo assim tantas vezes, confesso. Altas exigências comigo mesma, sentimento de rejeição... Formulo mil hipóteses, encontro padrões repetitivos achando que podem me ajudar a solucionar o problema, mas até hoje só tenho me torturado mais, tomando consciência do que (eu acho que) se passa comigo, sem mudar nada. Hoje, tratava-se apenas de uma aprovação besta. Eu disse a mim mesma que seria sem compromisso e assim o foi, lembro-me que escrevi o texto para a seleção no mesmo dia em que escrevi isso:
Digo
que não vou sofrer por sua causa, que quero desfazer esse laço, ou desatar esse
nó, mas... Acho sim que tem muito da vontade envolvida, e se eu realmente
quisesse, não estaria ligada a você dessa maneira. Mas imaginar um coração
vazio ou cedendo a tentações anteriores, tão ínfimas (ah, maldito orgulho), não
posso. Não me permito. Então alimento esse sentimento doentio. E de pensar que
poderia estar com você. Poderia te ver mais, trocar algumas, ou muitas. (...) E como vocês dois parecem
tão diferentes e talvez seja isso, a diferença. É algo que me rasga por dentro.
Só não rasga mais do que te ver, como hoje, sob o céu cinza, usando uma
camiseta preta, a mochila pendendo ao lado do corpo. Os cabelos são como mel,
menos atrapalhados do que de costume. Você analisa seu reflexo e leva a mão até
eles, ajeitando algum fio que pudesse estar displicente. Isso quando eu já não
podia alcançá-lo, atravessar a rua como quem não quer nada. Já havia passado o
ponto em que nos vimos. Silenciosos. Evitei o olhar. Olhando para trás depois (...). Pergunto-me se as pessoas na rua
notam meu olhar pedindo, lamentando, frustrado, te querendo. Uma palavra, um
oi, um sorriso, uma desculpa qualquer sob esse dia abafado de outubro. Outubro,
quando eu costumava invocar a magia. Mas que magia adiantaria agora? Você nem
me nota, não é? É insuportável, não cabe em mim. Implodo. E sei que tenho que
parar de me atacar.
Foi um dia triste, nublado como hoje. Só que já estou tão calejada desse sentimento que perdi a sensibilidade, tão machucada que já não arde mais. Te vejo e quero que me olhe, mas é mais por força do hábito. Meu coração já parou de se impressionar com muitas belezas. Ah, o que essas aulas não estão fazendo comigo... Há exatamente uma semana, senti um desespero tremendo, chorei, gritei, bati, rezei, me incorfomei. E agora... Bom, parece que também não sou boa o suficiente em ver o lado bom das coisas, essa tendência melancólica é como uma imã. E eu sei que não ter sido aprovada nessa seleção tem um significado maior. Eu não teria tempo para mim mesma se tivesse passado (mal tenho agora) e fui eu quem determinou meus horários tão restritos daquele jeito, justamente pensando que não quero me escravizar aos estudos nunca mais. E então, o tão famoso benefício da dúvida: foram meus horários ou eu realmente não sou boa o suficiente? Isso cria mais uma divisão no grupo, além das que eu tento mascarar (ou será que, na verdade, insisto em vê-las?). De escrava dos estudos à escrava das relações? Nunca me vi escravizada pela(s) instituição(ões), estava bem enquanto alienada. Mas agora, sinto essa necessidade de liberdade, de realização imediata, de transcendência. E foi-me negado o caminho intelectual da coisa. Sobra-me o lado prático, que eu vinha querendo mais ainda. Só que... Tenho medo. E tenho necessidade. E eles brigam entre si para ver quem comanda. E no fundo, qualquer das atitudes que eu tomar, não importa baseada em quê, terá sido escolha minha.
Engraçado (ou nem tanto) que, ainda hoje, eu lia um texto e me deparei com a expressão "sofrer mudança". Tentei parafrasear, o verbo "sofrer" parecia muito forte para ser usado, mas essa acabou por ser a melhor maneira de dizer. No fim das contas, mudar não é um processo indolor.