Mas para além disso,
simplesmente no nível imediato, o que aconteceu foi que o assunto discutido
entre meus velhos amigos (sem ironia, por favor) me causou arrepios. Nossas
conversas e meus favores me fizeram pensar novamente como fui injusta e como
tentava reparar meus erros agora, de algum modo. Não sei o que sentir em
relação a isso, de verdade. Então procuro não pensar muito e apenas agir.
Encontrei-me, então, com uma jovem amiga à porta de casa. Tão entusiasmada com
o aniversário da avó, tão cheia de preparativos. Hoje, elas explodiram como
raios de sol e jovens crianças pela rua, ao virem para a floricultura pegar o
buquê encomendado. Tão bonito. O presente nas mãos, um embrulho rosa claro.
Chocolates (diet), flores, cartão, companhia, abraços, risos. Amor.
Eu não achei que ia
chorar assim. Eu só queria ver as flores, de verdade. Por isso fiquei olhando
pela janela. Como sempre gostei de fazer. Ainda dói. Às vezes eu acho que
aprendi a lidar melhor com o luto. Às vezes, acho que vai doer para sempre. Eu
nunca vou saber se você me perdoou, embora eu tenha sentido daquela vez. Não
sei onde você está agora, não sei como é. Não sei se é o nada, ou se realmente
você me vê de algum lugar e cuida de nós. É tudo um grande vazio, cheio de
dúvidas, como a incerteza do amanhã que me consome. Você abriu meus horizontes
com as possibilidades que me mostrou. Às vezes eu tenho raiva disso, como
escapou ao início do texto. Às vezes (aquelas que eu queria que fossem mais
frequentes), eu transformo essas possibilidades e as moldo com criatividade. Já
tive conscicência disso antes, mas torno a saber que você contribuiu muito para
pessoa que eu sou hoje. E eu sempre vivi querendo tanto ser outro alguém, sem
valorizar essas heranças. É que sua vida deve ter sido tão sofrida, agora eu
sei (acho que sei). É por isso que eu preferia não imaginar isso. Como você foi
deixada, como deve ter chorado, como deve ter continuado amando o impossível.
Como foi guerreira, exemplo e criou seus filhos bem, não seixando que sentissem
tanto rancor. Talvez você também não tenha sentido tanto afinal, ou tenha
aprendido a lidar com ele. Ou talvez, seu amor fosse maior. E fosse maior
também quando eu... Enfim. Acho que você devia entender que eu era só uma
criança. Temos raiva de crianças às vezes, eu também tenho. Entendo se você
teve, ninguém é de ferro. Nem você foi, por mais forte que tentasse permanecer.
Não vou saber de muito do que foi, nem do que seria. Mas eu te amei, do meu
jeito torto. E ainda amo. Me perdoa, e agora também por querer ser diferente
daqui para frente. Eu te admiro nas circunstâncias em que tudo se deu, mas é
quero circunstâncias diferente para mim. Talvez eu não tenha sido tão má, mas o
que importa é que estou tentando ser melhor, o melhor de mim mesma.
