Na cozinha, minha chaleira e eu,
a água recém fervida e o telefone recém desligado. Uma cozinha bem decorada,
com bancada e madeira, ladrilhos hidráulicos e tudo o mais. Só que não. Minha cozinha
é branca e sem graça. A área de serviço, logo ali, também. E na falta de
bancada, estou encostada no portal mesmo. Um portal bem largo. Bom, ele é de madeira. E os ladrilhos, ando
pensando em adesivar, tem um tempo. Vale lembrar, no entanto, que a chaleira
não é chaleira, é leiteira mesmo. Mas ferve. E é só ficar de olho. Além do
mais, ferver não me é uma atividade habitual. Mesmo quando ele bebe. Sua língua
toda enrolada ao falar comigo ao telefone. Sedado para a vida, para as
sensibilidades e preocupações. Ele acha que ir à missa no domingo de manhã o
livrará de seus pecados e sodomias de sábado à noite. Detalhe: vividas no
sábado porque parte de seu domingo será tomada para vir me buscar. Ou será que
já virou rotina? Tenho que admitir o que não sei. Há tempos que não falo com
ele no sábado. Meus lembretes do celular só despertam para ligar para ele
durante a semana. Tento evitar essas situações, que eu vejo como erradas. Não queria,
mas já que vejo, procuro não vê-las. Nem ouvi-las. Nessas horas penso na garota
do pianista. Apesar de todo o sofrimento, seu processo de amadurecimento é
divertido e mais marcado pelas notas musicais e estradas em ônibus da banda do
que pelas lágrimas da descoberta. Verdade que ficou uma ferida ali. Mas o mais
interessante, é que a história é deixada em aberto. Não defini o quanto isso
ficou marcado nela. Talvez porque nada seja definitivo, tudo em vida é um
processo. Vida, aquilo que os professores de biologia dizem que não tem
definição. Numa ideia estática das coisas, não tem mesmo. Mas se eles dissessem
algo como “um processo contínuo em que tudo se movimenta, se desenvolve,
amadurece, culmina, morre, transforma e dialetiza”... Dialética. Equilíbrio.
Homeostase.
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